Morar em São Paulo é aprender a lidar com os dias nublados, os imprevistos e os intermináveis minutos no trânsito. É se programar sabendo que talvez tudo saia do plano e que, nem sempre, o lugar que você aposta que estará bombando vai te entregar a melhor noite. É sobre nem sempre realizar os seus sonhos, mas, também, sobre fazer coisas que você nunca imaginou.
Viver em uma cidade em que tudo pode acontecer é também colocar constantemente os seus limites à prova. Aprender a lidar com as contradições e riscos das suas próprias escolhas é só uma parte do dilema diário que é residir aqui. Tudo isso e ainda pagar aluguel, sair com os amigos, se inscrever no curso que há mais de um ano você está adiando, trocar de emprego e fazer uma nova tatuagem.
Depois de alguns anos observando e escrevendo sobre São Paulo, pude notar que a cidade nada mais é do que o reflexo de nós. Toda oportunidade que aparece é fruto da decisão de sair e conhecer pessoas. Aproveitar altas festas e noitadas é resultado da escolha de investir em entretenimento. Comprar um apartamento no centro… bom, esse ou é sorte ou é herança. O ponto é que a cidade entrega aquilo que você se permite enxergar.
A mesma coisa acontece na nossa vida. Nem sempre sabemos o que ela tem para nos entregar porque não nos damos a chance de olhar para o horizonte. Muitas vezes, cair na zona de conforto é só o resultado de não querer continuar a explorar o que tem por aí. É se isolar em um lugar imaginário, fazer-se acreditar que as limitações são maiores do que realmente são. É se deixar iludir ao invés de sonhar.
Por muito tempo, eu acreditei que o lugar onde eu tinha chegado era a linha final do progresso pessoal. Afinal, em poucos anos eu tinha realizado grandes sonhos: como ter me graduado no curso que eu sempre quis, ter morado duas vezes no exterior e ter estudado em uma universidade lá. Ter viajado para lugares incríveis e ter estampado diversas vezes o passaporte.
Montei uma rede de amizades sublimes, e isso resultou em dividir um apartamento com uma das minhas melhores amigas e, de bônus, ser vizinha de tantos outros. Conquistei minha independência financeira e encontrei um parceiro incrível, que me faz ser uma pessoa melhor todo dia. Comprei um jogo de roupa de cama que eu sempre vi e desejei. Visitei restaurantes, bares e baladas que eu nunca nem imaginei em ir. Já contei histórias que podem parecer impossíveis, mas aconteceram.
Foram tantas coisas, desde as mais simples até as mais grandiosas, que todas elas me levaram a acreditar que é possível alcançar os sonhos. Contudo, a mesma satisfação de ter chegado tão longe me fez acreditar que eu não merecia mais. Dessa forma, me perdi no círculo de acreditar que tudo o que eu queria já tinha conquistado e, assim, deixei-me estagnar.
A partir desse comportamento, comecei a acreditar que São Paulo não era mais como antes. Que hoje os lugares divertidos já tinham fechado, que as pessoas legais estavam ocupadas demais com a própria vida. Que não havia mais nada de novo para eu descobrir e, pior, que não existia mais nada nessa cidade para mim. Fui me afastando das visitas a galerias de arte e museus, fui deixando de participar de eventos culturais e fui me limitando a ir em lugares que eu conhecia e que costumavam não decepcionar, mas também não surpreender.
Deu certo por um tempo, mas enganar a si mesmo nunca se sustenta a longo prazo. Nesses momentos, é necessário fazer uma viagem para dentro e tentar entender a raiz de tanto receio de viver o incerto. Nada nunca foi garantido e muito menos prometido; mesmo quando as coisas começaram a melhorar para mim, nunca houve a certeza de que elas iriam ser do jeito que são.
Então, como fazer para romper com algo que já foi construído? Como sair do lugar que uma vez fez muito sentido, mas que hoje não preenche mais? Como começar de novo, mas dessa vez com outra perspectiva? Mover-se não é fácil, demanda coragem e vontade, mas a recompensa é sempre romper com o incômodo que não diminui.
Demorou um tempo até eu dar o primeiro passo para fora do meu casulo. É um trabalho de recalcular a rota e deixar-se ter ambição novamente. É entender que a vida está constantemente mudando e que tudo o que foi construído até hoje não necessariamente precisa se alinhar com o que você quer fazer amanhã. E que as escolhas feitas há anos não precisam definir o que você é hoje.
Foi difícil ter que lidar com o rompimento da bolha e voltar a ter contato com as pequenas frustrações. Lembrar que o controle não existe de verdade e que seguir em frente não é sinônimo de esquecer do passado. O começo é desafiador, e são tantos desconfortos com que temos que lidar, mas, como qualquer exercício que se faz, a prática sempre traz aprimoramento. Mesmo ainda estando no início desse processo, já comecei a sentir o frescor da brisa no meu rosto.
Afinal, as mudanças nem sempre são como desejamos, mas elas sempre fornecem a graça de sentir que o coração ainda pulsa e que o sangue ainda corre nas veias. Arriscar-se no desconhecido pode parecer perigoso, mas o frio na barriga sempre lembra que vamos ser sempre aprendizes de algo. Cada dia que passa te tira um tempo de vida, mas também te dá a chance de viver de novo.
Morar em São Paulo é aprender a lidar com os dias nublados, os imprevistos e os intermináveis minutos no trânsito. Mas, assim como na vida, também vai te entregar dias ensolarados, encontros memoráveis, beijos molhados, noites inesquecíveis, conversas na sacada, incontáveis taças de vinho com os melhores amigos, risadas e mais risadas. E o mais importante é que, quando você estiver pronto para se abrir, a cidade vai estar lá, esperando por você.
A.M.

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