Viver, trabalhar e postar

São Paulo, uma cidade do maior país da América do Sul que possui milhões de habitantes e recebe o posto de ser uma das maiores metrópoles do mundo. A capital é conhecida pela sua imensidão e pelos milhares de lugares para conhecer, morar e chorar quando a vida parece estar saindo dos eixos. Mesmo com sua tamanha abrangência, parecer conter apenas três tipos de trabalhos: marketing, áudio visual e DJ.

Se você frequenta a barra funda, mas especificamente o mamãe bar, é muito provável que você seja do áudio visual ou produtor de alguma coisa. Já se o seu endereço é em alguma rua da Santa Cecília é bem provável que você trabalhe com design, artes ou é head de alguma sigla que contém duas letras. Agora, se o seu CEP é em Pinheiros você deve trabalhar em um ótimo cargos, mas sua empresa já deve ter sonegado impostos.

Nomenclaturas a parte, a verdade é que viver em São Paulo também é experenciar um Linkedin da vida real. Como por exemplo, em uma mesa de bar sempre vai haver conversas sobre trabalho, tendências de mercado e fofocas das mais absurdas sobre o que acontece dentro da empresa. A resposta para a pergunta “o que você faz?” sempre vai ser com o que você trabalha, e, mesmo que você tente não se envolver, vai perceber que a palavra networking tem grande relevância na sua vida aqui.

Depois de um longo período me dedicando a me formar no curso de uma profissão que nem existe mais, eu comecei a dar pequenos passos em direção a o que algumas pessoas chamam de carreira. Em consequência disso, eu baixei o famoso aplicativo do mundo corporativo, e comecei a conversar com as pessoas sobre o que eu poderia fazer com um diploma e diversas experiências confusas que tive ao longo de dez anos.

Já fazia anos desde a última vez que apliquei para uma vaga, e confesso que ficou muito complicado entender o que as pessoas querem de verdade que você faça, ou tenha de bagagem. No meio de tudo isso, ainda exige que você tenha conhecimento de trends do TikTok e que seja um consumidor ávido de diversas redes sociais (o que, cá entre nós, acho um pouco problemático).

De qualquer forma, acredito que toda panela tem sua tampa da exploração, e que cada um pode contribuir com aquilo que sabe de melhor. Porém, no meu caso, parecia só que todas as minhas vivências, habilidades e até mesmo as decisões tomadas foram inúteis, ou até mesmo erradas, ao começar a receber uma enxurrada de não para vagas que eu mesma considerava como ruins. Mas a autoestima foi diminuindo conforme a ansiedade crescia; talvez eu não tivesse pensado em um futuro para mim.

Enquanto eu entrava em combustão com as minhas ideias, decidi migrar de aplicativo e fui para o Instagram para acabar com o resquício de sanidade que ainda tinha. Ao adentrar o mundo das vitrines da própria irrelevância, observei algumas pessoas que me instigaram a pensar o porquê nós nos levamos tanto a sério, e o porquê hoje queremos tanto ser descolados? De repente querer ser autêntico só fez com que as pessoas ficassem cada vez mais parecidas, replicando repetidamente algo que elas já viram, ou pior, que talvez nem se lembrem devido ao excesso de conteúdo.

De repente ter uma bota tabi, colecionar vinis e ter taças de martini se tornaram o certificado do quanto você não é como as outras garotas. A armação dos óculos, o copo d’água, o cabelo enrolado, o cabelo preso no gel, a boca contornada, a banda com menos de 100k de ouvintes no spotify, tudo isso se tornou uma identidade, uma personalidade, mas não que você seja isso, mas que você precisa mostrar que você tem isso.

Ter. Precisamos ter. O tempo todo algo novo aparece e cria-se a necessidade de ter algo para poder ser algo. O que será de mim se eu for para a academia sem um conjunto combinando ou com uma garrafa de plástico. Será se eu me divirto se eu não posto os lugares aos quais eu visito e frequento? Será se o meu valor estará sempre pautado nas fotos do meu feed e nas minhas aquisições?  

E nesses devaneios, eu voltei a me questionar sobre o trabalho, e lá no fundo, eu percebi que a minha frustração era a mesma para ambos os assuntos. Não era só o fato das empresas criarem nomes cabulosos para os seus cargos, mas como usufruímos do status para trazer relevância para nós mesmos. Seja nas fotos que se tornaram maiores que aquilo que efetivamente vivemos, ou no trabalho que se transformou em nossa personalidade, a simplicidade de viver aquilo que se tem para viver foi substituído por um discurso de que alta produtividade é a vida que vale a pena, seja no trabalho ou na vida pessoal.

Mais tarde, ainda fritando com todos as minhas reflexões, recebi de um amigo que conheci em uma das viagens e que hoje mora em hosteis e não pensa em outra vida a não ser de conhecer pessoas e viver diversas experiências, uma tirinha muito legal em que um homem pergunta a Deus qual é o seu propósito de vida, e em outro quadrinho ele responde que não existe algo como propósito, e que todo esse conceito de tentar se encaixar em um objetivo maior é só uma forma de tirar a sua liberdade de viver a vida.

Isso me fez pensar sobre o quanto a gente se leva a sério para ser e ter algo. O quanto estamos cada vez mais condicionados a sentir um valor por coisas externas. E o quanto desperdiçamos tempo tentando selecionar fotos perfeitas que fazem sentido para o nosso feed sendo que a melhor parte é viver aquilo que faz sentido registrar.

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