Em uma cidade onde os acontecimentos e mudanças são constantes, o tempo se torna abstrato. Sejam os planos para o próximo final de semana, as metas para o próximo semestre e os objetivos para daqui a cinco anos, esse estado de que sempre há algo por vir afasta o que acontece agora.
Já fazia um tempo desde que a realidade tinha mudado. As pessoas ao meu redor não pareciam mais ter o controle das situações, questões que antes eram só uma projeção de futuro passaram a fazer parte do meu repertório e, cobranças internas começaram a ficar cada vez mais complexas e determinantes. Em um estalar de dedos, eu estava sentada na mesa dos mais velhos e compreendia que daqui para frente o que me diferenciaria dos outros era um número.
O maior desconforto dessa realização era como eu não me sentia parte desse contexto. Mesmo sabendo que eu tinha vivido muita coisa, realizado sonhos e amadurecido meu comportamento, eu ainda sentia uma adolescente pulsar dentro de mim. Ainda que eu soubesse que eu nunca teria chance de me relacionar com Damiano da banda Maneskin, eu carregava um card dele em minha bolsa. Eventualmente eu assistia vídeo clipes dos Jonas Brothers e High School Musical e, muitas vezes, sentia falta de ser uma jovem indie que se sentia realizada em ter um Tumblr impecável e que assistia filmes cults.
Ao analisar as interfaces que eu carregava dentro de mim, eu me questionava se eu era uma jovem impostora, ou uma adulta não-funcional. Por um lado eu não conseguia mais me antenar nas tendências da internet porque estava ocupada demais trabalhando, e por outro lado, eu não tinha nada estável para poder me considerar madura. Mas afinal, o que é que nos define como adultos?
Segundo a lei, um indivíduo só se torna adulto ao completar 18 anos de idade. Já a ciência afirma que só quem chegou no ápice de seu crescimento e funções biológicas pode ser considerado um. A psicologia acredita que amadurecer está ligado o desenvolvimento a questões emocionais, intelectuais e sociais, rompendo a ideia de que o conceito “adulto” está ligado a um número. Na prática, é um pouco mais complexo encontrar uma definição, já que todos esses fatores influenciam como a sociedade nos enxerga.
Ainda sem encontrar uma resposta clara para a minha dúvida, eu enfrentava um dia que de fato não era para crianças. Só com um café no estômago, e muito trabalho pela frente, eu senti o primeiro alívio da semana ao ler a mensagem de que Rebeca estava vindo para São Paulo, e assim, passei a enxergar uma luz no fim da semana.
Rebeca e eu tínhamos desenvolvido uma amizade a distância, já que quando eu só tive a oportunidade de conhecê-la quando eu estava de mudança para o país do qual ela tinha acabado de regressar. Eu sentia uma grande conexão com ela, ainda que eu só a tivesse visto uma vez. Afinal, eu tinha compartilhado minha vida com pessoas e morado em espaços que fizeram parte da sua história. Quase como se ela pudesse estar presente sem estar.
O encontro ficou marcado para sábado, mas eu na sexta-feira eu já estava estressada o suficiente para aguardar só o dia seguinte para beber um drink. Com sorte, não foi complicado encontrar companhia para sair, já que Vic também estava na cidade e, como eu, com muita sede.
Nós nos encontramos no Regô, um bar intimista que costumávamos ir por dois motivos óbvios: o primeiro era porque os cocktails são bons e cabíveis para o nosso budget, e o dono do bar. Foi logo após a inauguração da casa que tivemos a chance de sentar no balcão principal e, ao avistar um bartender com uma tatuagem com o nome do lugar, nos fez perceber que estávamos de frente a um dos Mascella.
Ao sentar do lado de fora do lugar, eu e Vic conversávamos sobre assuntos de trabalho e do mundo corporativo. É incrível como o mercado de trabalho é nada mais, nada menos do que uma quinta série remunerada. Contudo, Vic com sua visão a longo prazo e seus pés bem fincados no chão, desabafava sobre as suas possibilidades de futuro e certas escolhas que ela teria que comer para crescer na carreira. Sem dúvidas, aquele era um assunto inevitável, ainda mais porque ao longo dos anos, certas coisas vão falando mais alto do que outras, e na nossa idade, a profissão para alguns é uma voz onipresente.
Depois de alguns drinks e um coach sobre o que eu poderia fazer com a minha vida. Eu e Vic decidimos ir dançar e, nada melhor do que Johnny Luxo para abrir o final de semana. Pena que eu tinha sido imatura suficiente para esquecer de comer antes de sair e de tomar água depois dos drinks. Resultando em uma ressaca absurda que me forçou a seguir uma dieta a base de comidas leves, hidratação constante e dorflex.
Apesar da dor de cabeça insuportável, o sofrimento só veio quando recebi uma notificação no grupo dos amigos confirmando o encontro daquela noite. Rebeca já estava em solo paulista e eu só pensava em ficar deitada assistindo qualquer reality show em que um casal ou briga ou compra uma mansão. Vencida pelo compromisso de honrar com meus amigos, eu ativei eu arquétipo Samantha Jones e me joguei no lookinho mais provocativo e clássico que tinha.
Ao chegar de Uber na casa de Laura, instantaneamente todos os meus arrependimentos de ter saído de casa foram embora. Nesses momentos, eu me questionava se aquele papo de que “o amor verdadeiro da nova era é os amigos”, seja verdade. Eu me sentia tão confortável e feliz de ter meus amigos para desabafar sobre a vida, chorar e dar risada, dividir meus dias, que eu cada vez mais, eu acreditava que nenhum homem jamais superaria isso.
Dessa vez nós decidimos ir no Luiiza, um lugar que além de servir the real brazilian aesthetic, tinha espaço suficiente para abrigar nossas longas conversas e opiniões questionáveis. Conforme cada integrante da mesa chegava, notamos que nenhuma de nós entregava mais do que 2 cm de pano na parte de baixo. Como Vic pontuou, o dress code do nosso grupo era ter uma parte da nádega aparecendo.
Entre um papo e outro, Pietro contou sobre o acontecimento inusitado do outro dia, e toda a mesa paralisou ao saber que atualmente os encontros não demandam mais conversas e, aparentemente, nem roupas. Porém, todos nós sabíamos que na escala dates, Pietro está em um nível tão avançado que nem chega perto das nossas vivências.
Entretanto, o que me chamou atenção, foi a contradição do grupo sobre o assunto sair com homens mais novos. Para Vic não valia a pena perder tempo com alguém que nem saiu da universidade ainda, para Pietro era divertido ensinar novas habilidades para alguém tão jovem; Já para Laura, idade era só um número e para Rebeca pessoas mais novas que ela nem era gente. Eu não tinha problema nenhum com isso, mas eu confesso que dependendo da idade minha autoestima seria questionada. A partir desse tópico, eu percebi que não nos víamos mais como jovens. As nossas vivências, responsabilidades e preferências nos afastam dos mais novos.
Depois de quase sermos expulsos do bar, eu estava sem energia para continuar a noite, então pedi um Uber.
No caminho de volta para casa, refleti sobre o que ser adulto significava para mim. Como parte de uma nova geração, conceitos como casa, família e casamento estavam longe de nos definir como maduros. O que, talvez, pode confundir e fazer sentir que ainda não chegou à idade. Seguindo essa linha de pensamento, acredito não existir algo fixo e determinante como “ser” adulto. Penso que existem comportamentos e nuances que nos levam a “estar” como tal.
Uma decisão bem pensada, um repertório bem construído, um sonho estruturado. Tudo aquilo que vem de uma base sólida, que entende a loucura do mundo mas não enlouquece com ela. A noção que as pessoas podem ser cruéis mas, ainda assim, se permite ver beleza nos pequenos atos. Isso tudo nos coloca como adultos. É quando aprendemos a cuidar dos outros mas ainda procuramos alguém para cuidar de nós. Acho que o adulto mora na sobriedade, na clareza, mas ele também é compreensível, porque ele também já foi jovem, e muitas vezes, ele vai se permitir ser um também.
A.M.
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