O contraste da cidade que nunca dorme 

São Paulo tem a fama de ser a cidade que nunca dorme. Com os dias agitados e a interminável vida noturna, a cidade pode te convencer que toda hora é hora de fazer algo. Não é só o fato da metrópole brasileira oferecer serviços 24/7, existe algo para além do prático, mais espirituoso, que te mostra que o tempo é uma ilusão para aqueles que vivem aqui.

A vida social na cidade não poderia ser diferente. Sempre há alguma coisa acontecendo e ficar em casa é só uma questão de opinião. Toda semana tem a inauguração de um novo restaurante, ou a estreia de uma peça de teatro, ou uma exposição de um artista revelação, ou um festival acontecendo. Isso quando tudo não acontece em um final de semana. 

Ainda pegando o fôlego dessa nova realidade, eu me vi perante a um final de semana que tinha tudo para ser calmo. Parte dos meus amigos estavam de viagem marcada e a outra metade tinha planos que eu facilmente poderia escapar. Contudo, o que eu não esperava era que o improvável estava prestes a atravessar as minhas expectativas. 

Jacque, um amigo francês de longa data que eu conheci em Londres, estava em São Paulo. Ao perceber que eu estava de volta, não hesitou em me ligar. Durante a conversa ele explicou que uns amigos, também de Londres, o tinham convidado para um jantar, e por isso só de passagem em solo paulistano. 

Com o celular na mão, eu encarava a minha cama macia com o meu novo livro, delicadamente colocado ao lado do travesseiro, enquanto eu absorvia os fatos de que o meu plano de fazer um skin care, assistir um bom filme e ler o romance de Milan Kundera iria por água abaixo. 

Eliminando todas as chances de eu poder inventar uma desculpa para não nos encontrarmos, Jacque usou do artifício de que faz muitos anos que não nos víamos e ao antes de desligar gritou: “Ninguém dorme em São Paulo”. 

Sem muito poder de escolha após uma (quase) ameaça, mandei uma mensagem para Victória perguntando se ela poderia colocar meu nome na lista, já que ela sempre tinha os contatos certos para os momentos mais complexos. Sem me perguntar o que tinha acontecido ela me mandou a confirmação, ressaltando que eu tinha que chegar lá antes da 1 hora da manhã.

Ao notar que o relógio marcava 23h48min, corri para me arrumar para tentar chegar antes da lista encerrar. Muitas coisas tinham mudado na noite de São Paulo, as regras não eram as mesmas e, desde que promoters se tornaram sugar baby nas horas vagas, as festa se tornaram mais genéricas, perdendo a autenticidade dos temas emblemáticos. 


Já no Uber, à medida que conversava com o misterioso motorista, eu me questionava se era ético perturbar alguém com flertes durante seu horário de trabalho. Mas ele não parecia se importar, e eu muito menos. Entre uma risadinha e outra, recebi duas mensagens de voz de Laura, o que era completamente atípico vindo dela. Pedi licença ao meu crush para ouvir os áudios imediatamente, quando eu ouvi uma voz masculina dei um grito, e naquele momento percebi que perdi minha paquera. 

Bernardo, um designer que estudou junto com Laura na época de Belas Artes, tinha a encontrado naquela noite, e estava louco para me reencontrar também. Instantaneamente mandei a localização da balada que eu estava e eles, sem hesitar, confirmaram que iriam me encontrar mais tarde. 

Ao sair do carro eu logo avistei Jacque no fumódromo. Ele, violando todas as regras e sinalizações do espaço, veio até mim segurando seu cigarro em uma mão e sua bebida na outra. O seu sotaque era algo entre carioca e mineiro com uma pitada de francês, mesmo as vezes sem entender o que ele dizia, sua linguagem corporal não escondia que ele estava muito feliz em me ver. 

Ao entrar na Jerome me senti como se estivesse em casa. A balada que fica em frente a um cemitério, tem a fama de ser o lugar que concentra o maior número de homens de negócios que são fãs de Madonna. O lugar além de ser intimista, carrega uma lenda que diz que ao encontrar o Mestre dos Magos, o tempo e espaço se tornam relativos e, assim como no desenho animado, te mantém enclausurado até a festa acabar.

Foram dois Dirty Martini, muitas atualizações sobre a vida, e claro, muita dança até Laura e Bernardo chegarem. No momento em que eles apareceram, o local já estava lotado o suficiente para ao qualquer momento você se esbarrar em alguém. Quando eles conseguiram me achar, notei que mais alguém acompanhava Laura, mas sem muitas explicações, ela o apresentou a mim e a Jacques. 

Laura sempre foi muito discreta e quando assunto era relacionamento, isso não era muito diferente. Muitas vezes, descobrimos depois de muito tempo que ela estava interessada, ou até que tinha ficado, com alguém. Confesso que gosto da expertise dela em saber conter as informações, já que eu não conseguia manter uma palavra dentro da minha boca. 

No balcão para pegar outro drink, Bernardo perguntou se eu não queria ir com ele para o lounge da balada, onde poderíamos conversar melhor. Enquanto eu contava para ele sobre o meu ano em Portugal, ele me fazia perguntas sobre qual eram os meus planos para o futuro, e o que eu tinha vontade de fazer uma vez que retornei. Eu não me incomodava em não ter objetivos a longo prazo, ainda mais nesse momento de transições e finalizações na minha vida. Contudo, por outro lado, eu sentia um certo desconforto dentro de mim por não ter um caminho definido no qual eu gostaria de seguir. 

Não era a primeira vez que eu me via nesse lugar. Conforme os anos foram passando, e o vinte foi ficando mais distante do que o trinta, eu comecei a sentir que existe uma necessidade de definir algumas coisas na vida. Você passa a conviver com uma pressão diferente, que te empurra a considerar coisas que até ontem eram apenas projeções em sua cabeça. Mas ao mesmo tempo, é quase como se a adolescência não tivesse saído do seu corpo ainda (tirando a parte da ressaca e sono). Quase como se estivesse ocupando dois espaços ao mesmo tempo, e a todo instante, tendo que escolher qual que você quer permanecer. 

Ao perceber que a conversa estava tomando um rumo sério demais para uma noite descontraída, Bernardo mudou de assunto e perguntou quem era meu amigo francês. Ao ver seu sorriso ousado e uma pontinha de interesse, eu logo me senti na responsabilidade de ser a ponte entre Brasil e França. 

Entretanto, no jogo da sedução o que mais vale é o timing do que a persuasão. Ao ir de encontro a Jacques que estava próximo ao bar, ele me apresentou ao sr. Músculos. Um homem bronzeado de estatura média que provavelmente tomou no café da manhã um milk shake de Whey com cobertura de bomba. Um pouco surpresa com a agilidade do meu amigo, eu perguntei o que ele achava do Bernardo, mas ele estava ocupado demais flertando com o Hulk. 

Sem querer dar as más notícias a Bernardo, eu decidi pedir o que seria o meu último drink, já que, provavelmente, eu tinha feito um rombo na minha conta bancária e daquela noite até o mês que vem teria que entrar na dieta da água e pão. Laura e seu amigo vieram até mim para se despedir e eu me questionei que horas eram, até perceber que não faltava muito para nascer do sol. 

Não demorou muito para Bernardo me encontrar, e eu tive que contar a ele que Jacques estava acompanhado e que, dessa vez, eu tinha falhado em minha missão. Ele não pareceu muito surpreso, mas eu pude notar um certo descontentamento. Ofereci minha taça como forma de consolo e perguntei se ele estava afim de ir embora, ele concordou. 

Ao chegar na porta, Bernardo parou de repente e fez um movimento para que eu aguardasse um instante. Ele caminhou em direção a Jacques, e eu não consegui fazer nada além de observar o seu movimento. Eu não sei se foi o Dirty Martini, os cogumelos mágicos ou a vontade de vingança, mas quando vi o designer se afastando do francês, eu notei que Jacques estava completamente desconcertado e com um semblante perverso. 

Eu nunca descobri o que Bernardo disse a Jacques, mas tenho certeza que aquela meia dúzia de palavras violam leis em múltiplos países. 

No caminho de volta eu observava as ruas da cidade se contrastando entre a despedida da noite anterior e a preparação para um novo dia. Enquanto as pessoas com suas roupas escuras e maquiagens carregadas retornavam para suas casas, já era possível ver grupos de ciclistas pedalando nas avenidas. Ao passo que os bares iam fechando as padarias já ofereciam sua vasta opções de café da manhã. E assim, São Paulo vai se transformando sem parar. 

Talvez concessões não precisam ser feitas para nos tornarmos alguém, ou conquistarmos algo. As mudanças ocorrem o tempo todo, o que, naturalmente, faz com que uma coisa saia para outra entrar, mas isso não significa que ambas não pertençam ao mesmo lugar. 

E foi assim, atravessando a cidade que eu fiz as pazes com o que uma vez eu fui e o que um dia eu virei a ser. 

A.M. 

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