As ferramentas necessárias

Participar de uma geração que, majoritarimente, foi ensinada a prezar pela independência, a conquista pessoal, o sucesso profissional, entre outras coisas, moldou mulheres que hoje estão aos poucos conquistando isso. Contudo, por mais que isso foi recebido há algumas décadas, não quer dizer que o entorno se adaptou para tais mudanças.

Ao longo da minha juventude, eu tinha certeza qual caminho eu deveria trilhar e de todas as coisas eu precisava correr atrás. Eu tinha referências de personagens de filmes que ensinavam como chegar na Vogue ou, pelo menos, ter uma carreira que proporcionasse comprar o que se vende na revista. Tinha lido diversos livros que me mostravam as possibilidades da vida e, até mesmo, conhecia pessoas que aparentavam ter cruzado a linha de chegada.

O início da fase adulta se mostrou mais caótico e excitante do que eu podia imaginar. Em um estalar de dedos, todas as certezas caíram por terra, e uma nova gama de possibilidades foi exposta. A partir daquele momento eu entendi que eu poderia contar a minha própria história, tinha mais autonomia para trilhar o caminho que eu desejasse e, surpreendetemente, não fazia mais sentido todas aquelas referências que foram alicerces na adolescência para mim.

Anos se passaram e as coisas mudaram. Os questionamentos se alteraram, cobranças apareceram e, mais do que nunca as escolhas se tornaram cem por cento minhas. A palavra responsabilidade transformou-se em bem-estar, e planejamento virou sinônimo de paz interior. Me questionei se estava mais careta ou só precavida. Indiferente da resposta, me aliei ao meu corpo e entendi que uma noite de sono possui grande valor.

Para além das coisas que naturalmente vão se alterando, me deparei com desejos que não pertenciam genuinamente a mim. Mesmo tendo trilhado um caminho diferente do qual tinha imaginado, cheguei na parada em que o valor pessoal começa a ser medido não só pelas conquistas profissionais, como as sentimentais. Uma nova urgência se criou, e sem notar os sonhos de infância precisaram dar espaço para outros, já que o tempo está passando e ele não te espera.

De repente comecei a ouvir perguntas que antes ninguém as faziam, percebi que despesas são melhor distribuídas quando divididas e até mesmo pensei sobre maternidade, sendo que ontem isso estava tão longe de ser uma questão. Percebi que tudo muda, mesmo quando decide-se manter estático.

Confesso que por um tempo eu entrei na pilha e me convenci a partir de uma matemática duvidosa de que se eu não colocasse energia em encontrar alguém, meu futuro estava fardado a uma vida solitária e sem família. Por mais dramático que isso soe, é verdadeiro. E o mais problemático é que isso não veio de dentro.

Após perceber estar correndo atrás das expectativas alheias, ou indo de encontro a um padrão que foi completamente omisso da minha formação como pessoa, eu olhei para o meu desespero e me questionei da onde vinha. Afinal, não pertencia só a mim, mas, notavelmente, as mulheres em geral.

Para além dos valores arcaicos que a sociedade ainda cultiva, a mulher ainda está muito pautada na ideia de que a vida só terá sentido se encontrar alguém que a complete. Mesmo que ela tenha sido ensinada a correr atrás dos próprios sonhos, nunca houve ferramentas que auxiliassem no processo de fazer isso acontecer. Penso que essa frustração existe, por ainda estar entre momentos distintos. Quase como se um pé estivesse no que já foi e o outro pé no que ainda será.

Já o desespero eu pude notar que cresceu de um momento de vulnerabilidade. Ao perceber que todas aquelas metas que um dia criei para mim não foram ainda alcançadas, decidi pegar a rota mais curta e ir de encontro a alguma sensação de conquista. Entretanto, dei de cara na parede quando percebi estar no lugar errado. Cada pessoa possui uma trajetória única, e não vale a pena forçar uma situação para atingir um resultado mais rápido.

A maior lição que eu tirei disso foi que as coisas precisam de tempo e de preparação. Tudo que vem como um sopro vai embora na mesma intensidade. Optar por atalhos só joga fora o aprendizado que precisa ser vivido para estar pronto para aquilo que você merece. E se ainda não encontrou, é porque ainda não está pronto.

Quando eu percebi estar me sobrecarregando com um peso que não me pertencia, decidi pegar mais leve comigo mesma e viver aquilo que me traz alegria. Sem grandes objetivos e com muito menos pressão. Voltei a viver um dia de cada vez, e decidi me propor menos objetivos e metas mais palpáveis.

Para além de uma maior satisfação por estar mais focada no que estava ao meu redor, pude me conectar com aquilo que eu realmente gostava. Esse processo de esfriamento, me levou a uma epifania. E de repente, eu percebi que eu mesma tinha achado as ferramentas para viver a vida que eu queria.

A.M.

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