Existe algo de curioso em morar no Porto. Pode ser a proporção do local, o costume de ver rostos conhecidos e rapidamente entender o ritmo da cidade. É natural que ao se mudar para um novo local, exista uma motivação para conhecer tudo ao seu redor. Você está mais aberto a mais propostas, conhecer novas pessoas e lugares. Como a referência é pequena, tudo o que se é oferecido é excitante.
Depois de um tempo você se acostuma com os lugares, estipula os seus favoritos e inicia uma repetição. Em um lugar em que possui um ritmo mais lento e pequena tendência a grandes mudanças, as coisas facilmente se torarem mais do mesmo.
Como um vento que traz consigo uma chuva inesperada, uma nova pessoa entrou em minha vida. Não como um amante, mas como um amigo. Acostumada com o mesmo ciclo sempre, Felipe entrou para o grupo e me trouxe consigo uma nova perspectiva de tudo aquilo que eu já tinha vivido. Com seu vasto conhecimento em música e paixão por arquitetura brutalista, eu podia sentir o frescor, uma nova visão, um novo pensamento.
Não demorou muito para nos conectarmos, ele tinha uma adoração pela cidade em que eu nasci e sabia de muitas coisas das quais eu tinha curiosidade. Foi algumas semanas e copos compartilhados, para eu receber um convite para um lugar desconhecido. Felipe me chamou para ir no Café au Lait, uma boate localizada na Rua das Galerias e que tinha fama de trazer DJs mais experimentais e fora do óbvio. Sem hesitar, aceitei.
Minutos antes do ponteiro marcar meia-noite, encontrei Felipe na praça da Cordoaria para bebermos algo enquanto esperávamos o lugar ficar mais movimentado. Durante a conversa, pudemos trocar os nossos pontos de vista sobre morar na Europa e sobre a superestimação sobre o modelo de vida. Não sabíamos se era pelo país ou pela cidade, mas tínhamos uma opinião semelhante sobre a falta de grandes estímulos e, talvez, o incessante impulso que tínhamos em viver o novo.
Ao chegar no Café au Lait, ficamos contentes por não ter que pagar entrada e logo fomos tomados pelo ambiente intimista e bem decorado. Nesta noite, os DJs tocavam uma mistura de Psychedelic Trance com Funk brasileiro. O que chamou minha atenção, já que eu não conhecia essa cena do Porto.
Enquanto dançava ao som da batida rápida e eletrizante, notei um casal totalmente fora de sintonia ao canto da boate, perto da máquina de cigarros. A falta de concordância não era entre eles, mas ao lugar. A mulher de mais ou menos 1.65 m e um homem com sobrancelhas grandes e escuras, desfrutavam de suas cervejas rindo e dançando totalmente fora do ritmo da música. Eles não pareciam se importar. Ambos estavam conectados a si mesmos, pelo desconforto que aquele era um de seus primeiros encontros.
Sem querer parecer uma psicopata, mas muito interessada qual seria o desfecho do que eles estavam vivendo, eu peguei emprestado os óculos de sol de Felipe e os observei tranquilamente por detrás das lentes escuras.
Os dois pareciam envergonhados pela falta de intimidade, mas dispostos a quebrar as barreiras que separavam eles. Ela dançava movimentos bobos, enquanto ele ria e se aproximava com pequenos toques. Ele falava baixo para que ela se aproximasse mais dele. Ela não se importava com o lugar, ele já estava totalmente na dela.
Foram dois copos e uma ida ao banheiro, que rederam um beijo. Satisfeita com a minha espionagem, devolvi os óculos ao dono e os deixei viver o que já tinham começado. Dancei até Felipe pedir para acompanha-lo para fumar. Após dois cigarros e algumas opiniões sobre o lugar, decidimos ir para casa. Fiz o caminho de volta a pé, o que me ajudava em momentos de reflexão.
O que eu tinha visto naquela noite me invadiu de forma diferente. Não era o casal em si que tinha me intrigava, mas a mitigação em se conectar com alguém. As vozes da minha cabeça deduziam que pela aparente idade, aquilo não era inédito para eles, provavelmente já tinham ido a outros encontros, e conhecido outras pessoas. Esse detalhe era o que mais me compelia a acreditar que o amor não extingue.
Assim como as pessoas, as cidades possuem ritmos diferentes. Algumas são mais rápidas outras menos aceleradas. Contudo, sempre há algo de novo para experienciar. Mesmo aquilo que uma vez já foi vivido, pode se tornar pulsante, basta convidar alguém novo para te acompanhar.
A.M.

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