Porto é uma cidade que à primeira vista pode parecer tranquila demais para oferecer entretenimento. Ao contrário das metrópoles, algumas ruas podem ter pouco movimento ou quase nenhum. Contudo, é exatamente nesses lugares que você menos espera que você mais se surpreende. Você só tem que dar a chance de entrar e descobrir o que tem além daquela porta.
Já eram mais de cinco horas da tarde quando eu e Giovanni, decidimos sair para tomar alguma coisa. Era apenas terça-feira, mas já estávamos preparados para fazer o nosso weekly check e apontar todas as coisas que tinham acontecido desde a última vez que nos vimos. Naquela noite, marcamos apenas de nos encontrar na rua de Cedofeita e de lá decidir o que fazer. Sem querer repetir os mesmos lugares de sempre, optamos por andar sem rumo.
Desde a minha primeira conversa com o Giovanni eu sabia que nos tornaríamos bons amigos. Talvez tenha sido o seu jeito descontraído, ou sua história infalível na balada Zoom, que me confirmaram que nós, de certa forma, levávamos a vida no mesmo ritmo: caótico. Giovanni era uma pessoa doce e também de grande coração, mas também tinha seus momentos de vulnerabilidade e indecisão. O que sempre me fazia questionar se eu tinha algum karma com pessoas do signo de Libra.
Caminhando perto do Bolhão, Giovanni lembrou-se de um bar que tinha ido há um tempo atrás e perguntou se eu conhecia. Eu não fazia ideia de onde era aquele lugar, então ficou decidido que iriamos para lá. A Letraria é um bar de Craft Beers que concede a cada tipo diferente de cerveja uma letra do alfabeto. Ao adentrarmos no espaço, só havia um balcão e duas meses desocupadas. A atendente que estava ali perguntou se conhecíamos o local e nos entregou comandas para fazer os pedidos, sem entender o porquê um lugar tão pequeno entregaria cartões para manter o controle dos pedidos, aceitei e acompanhei o Giovanni.
Descemos uma de dez degraus e viramos à direita, logo a direita avistei mais algumas mesas e um outro balcão com diversas torneiras espalhadas na parede. Continuei a seguir o Giovanni, que atravessou uma porta e daí compreendi a importância de um controle de pedidos. Atrás de todo a estrutura, havia uma esplanada imensa, cheia de árvores e cercados que mantinha diferente tipo de plantas, flores e até verduras. Escolhemos uma mesa perto de uma fonte desativada e sentamos para escolher as nossas cervejas. Como era minha primeira vez, decidi começar pelo A, uma Blonde Ale que pelo o que notei, era o que tinha o teor alcoólico mais baixo.
Giovanni buscou a primeira rodada e brindamos.
– Então, qual são as novidades? — Eu disse enquanto dava um gole na cerveja.
– Poxa! Eu é quem vou dar a largada dessa vez? — Giovanni perguntou e eu concordei com a cabeça. — Bom, nada muito novo no trabalho e também nada muito novo em relação ao meu inferno astral. Porém, estou intrigado com algo que aconteceu neste último Domingo…
Fixei meu olhar nele para que ele continuasse.
– Sabe aquele espanhol que eu conheci algum tempo atrás? — Ele perguntou e eu sem saber ao certo se lembrava, concordei para não cortar a história — Então, ele é curador de uma galeria de arte aqui do Porto, e esse Domingo foi a inauguração da nova exposição que ele é responsável.
– Uau, pouca coisa ele não é — Respondi admirando o bom gosto do meu amigo.
– De fato não é, amiga. Essa inauguração foi um cocktail party para receber algumas pessoas importantes do mundo da arte que tinham envolvimento com o projeto. — Giovanni deu uma pausa — Como ele já havia comentado sobre esse evento várias vezes, acabou que ele me chamou para participar e conhecer um pouco do trabalho da artista da exposição.
– E você aceitou? — Perguntei serrando os meus olhos.
– Ah amiga, sim. Achei legal da parte dele me chamar para conhecer um pouco mais sobre o trabalho dele.
– Mas você entende de arte?
– Absolutamente nada — Rimos juntos.
– Enfim — Giovanni continuou — Quando eu cheguei lá, me surpreendi com o número de pessoas presentes. Quando eu o avistei, percebi que ele conversava com outras duas mulheres, então dei um aceno de longe. — Pausa — Na hora que ele me viu, ele acenou para que eu me aproximasse dele, e antes mesmo de me apresentar para as pessoas ao seu redor ele me beijou.
– O que? — Respondi surpresa.
– Sim, amiga!
– Nãoooo! Como assim, quantas vezes vocês se viram até hoje?
– Contando com esse dia, foram três vezes.
– Ihh, não quero ser essa pessoa, mas acho que devo-lhe informar que ele não está te querendo como um ficante.
– Amiga, aí é que está. Naquela noite, eu consegui me ver muito em um relacionamento ali com ele. A forma como ele conduziu a noite, eu poderia até dizer que parecíamos estar em um relacionamento há muitos meses. Mas depois de Domingo, as coisas estão exatamente iguais. Tipo, não sinto que ele queira algo sério.
– Espera. Como assim? — Perguntei confusa. — O que ele fez na Galeria é exatamente um sinal de que ele te coloca no lugar de algo sério. Ninguém beija um date na frente de chefe.
– Então… é isso que está me intrigando. — Nós dois demos um gole na cerveja procurando achar uma lógica para uma situação tão estranha.
Ficamos mais alguns segundos em silêncio até que decidi arriscar começar o Brainstorming.
– Você que é possível ele… — Giovanni me deu seu olhar de “por favor não me fala que me meti em um enrascada de novo” — Você é acha que é possível que ele tenha feito isso para se validar na frente das pessoas do trabalho? — Lancei a pergunta como um jato para que a velocidade atrapalhasse o entendimento, tornando aquilo não real.
– Se validar no sentido de ser aceito sociavelmente por estar com alguém? — Infelizmente Giovanni tinha entendido cada palavra.
– Sim — respondi com arrependimento.
– Não tinha pensado nisso. — Eu não perdoaria se Giovanni ficasse triste por conta de uma suposição minha. — Porém faz muito sentido!
– Faz? — Eu não queria eu fizesse.
– Sim. — Ele respondeu — Até porque, era notável que as pessoas ali já estavam mais settled na vida em relação a relacionamento, e ele, bom… Ele já está indo para os seus 43 anos e comentou comigo que nunca esteve mais do que meses com alguém.
Depois daquele comentário, eu e o Giovanni decidimos só deixar a conversar fluir para outros temas. Afinal, ainda tinha a minha semana a ser analisada. Depois de algumas horas, eu me despedi do meu amigo e agradeci pela noite e as várias letras que bebemos.
No caminho de casa, não conseguia evitar pensar na conversa que tivemos. Será que estar em um relacionamento realmente nos valida socialmente? E se sim, será que muitas pessoas só estão juntas porque a vida de solteiro pode descredibilizar quem se é?
Mais tarde naquela noite, Andrew me ligou como de costume após sair do trabalho. Ele me contou que tinha começado a sair com um cara que tinha influência dentro da moda, e que talvez seria convidado para um after party do London Fashion Week. Contei a ele sobre minha noite com o Giovanni, e perguntei sua opinião sobre o assunto.
– Claro que muitas pessoas usam um relacionamento para serem aceitos. Não basta ter uma carreira bem-sucedida, uma conta bancária maravilhosa e um corpo perfeito. Se você é solteiro, a sociedade sempre vai te olhar com pena por ainda não ter encontrado alguém, ou vão achar que você tem uma disfunção. — Não me surpreendia mais com o jeito direto do Andrew.
– Você acredita mesmo que muitos casais só estão juntos porque existe essa pressão social?
– Sim. — mais uma vez ele respondeu diretamente — Mas não cria paranoia, minha querida. Muitas dessas pessoas nem pensam sobre isso, elas só seguem o que foi dito a elas. Até porque, você já questionou o porquê o abecedário tem aquela ordem?
– Ok, entendi.
Mais tarde naquela noite, eu refleti o que eu queria genuinamente para mim. Fiz uma lista sincera do que eu desejava para o meu futuro e me questionei se aquilo vinha de dentro, ou de uma suposição do que era o ideal para mim. Olhei para a minha cama vazia e percebi que eu não sentia necessidade de preencher aquele espaço. A verdade é que nunca pensei em estar com alguém para me sentir completa ou pertencente de algo. Contudo, se um dia alguém estivesse ali, eu teria certeza que foi escolha minha.
A.M.

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