Quase Vinte

Depois de ter experimentado a Carbonara e tomado duas garrafas de Pinot Grigio, posso dizer que eu e Matteo nos demos muito bem. Ele era um tipo de pessoa que levava a vida sem preocupações e parecia estar sempre disposto para uma nova aventura. Era notável que tinha um espírito livre e questionador. Ele sempre compartilhava suas vontades de desbravar o mundo e se permitir viver cada experiência que a vida proporcionasse. E eu, muito consciente, sabia que estava caindo no papinho dele.

Matteo nunca mandava mensagem antes do meio-dia, isso porque ou ele estava dormindo ou tinha ido surfar na Praia de Matosinhos. O que me dava bastante espaço e tempo para focar nas minhas aulas. Sempre que recebia uma notificação dele eu sabia que uma risada estava por vir. Era tudo muito leve e eu sempre fica surpresa o quanto ele gostava que eu contasse sobre as minhas experiências de vida, as coisas que eu já tinha feito e as pessoas que eu tinha conhecido. Ele ficava intrigado com as minhas histórias sobre Londres e jurava que precisava ir ao Brasil para entender a nossa realidade.

Já faziam algumas semanas que estávamos nos vendo e eu não conseguia chamar aquilo de relacionamento, mas também não queria ver outras pessoas. Como de costume, ele me convidou para ir jantar em sua casa e acabei dormindo por lá. Matteo dividia um apartamento com mais quatro estudantes, cada um de um país diferente. Nenhum deles falava português, e poucos conseguiam se comunicar em inglês, mas de certa forma todos se entendiam. O apartamento era grande e com diversos cômodos. Além de muito espaçoso tinha uma varanda incrível onde, na maior parte do tempo, era onde ficávamos. O único problema era que o engenheiro tinha focado demais na estrutura dos quartos e esquecido de projetar mais banheiros, crucialmente construindo apenas um para tantos moradores.

No dia seguinte, acordei em cima da hora. Eu sabia que se não ousasse furar a fila, chegaria atrasada na aula. Sai do quarto e logo expliquei minha situação para a espanhola que esperava pacientemente alguém terminar o banho. Marta era uma garota baixa e loira, e sempre conversava comigo em espanhol. Esta manhã era a primeira vez que a encontrava sóbria e sem óculos escuros.

Quando sai do banheiro, ela veio até mim e perguntou em espanhol:

– Você não quer tomar café da manhã antes de sair?

– Obrigada, mas estou atrasada. — Respondi com um raso portunhol.

– Fica para próxima, então — Ela pegou seu nécessaire em cima da mesa e caminhou sentido ao banheiro — Quantos anos você tem, tía?

– Vinte-quatro — disse rapidamente enquanto abria a porta de entrada.

– Niceee! — Ela respondeu entrando no banheiro

Acenei para ela e fechei a porta. Na tentativa de não perder o próximo trem, desci as escadas e andei o mais rápido que pude sentido a estação. No caminho para a universidade me questionava o porquê a minha idade era tão relevante para Marta. Entre tantas coisas que ela poderia se interessar antes das 8 horas da manhã, por que dois números tinham tanta importância?

Mais tarde naquele dia, como de costume, Matteo mandou uma mensagem para nos encontrarmos nas Virtudes para ver o pôr-do-sol. Ainda incomodada com o episódio da manhã, aceitei o convite, contudo, sabia que não ia conseguir esconder a paranoia que só crescia na minha cabeça.

O jardim das Virtudes é uma praça cheia de bares que oferece uma das melhores vistas da cidade. Não importa se está frio ou calor, sempre tem pessoas sentadas na grama conversando, ouvindo música ou apenas aproveitando o que o Porto oferece de melhor, tempo.

Ao chegar avistei de longe o cara dos cabelos loiros e olhos de vidro. Matteo estava acompanhado de alguns amigos que eu não conhecia. Ao me aproximar, ele me notou e logo se levantou para me cumprimentar. Como sempre, ele não se preocupava com a presença de quem está por perto, e me deu um desses longo beijos, que tenho que me afastar para não criar uma antipatia com os outros.

– Não vai apresentar seus amigos? — Perguntei com um sorriso.

– Ah claro!

Enquanto era apresentada ao grupo de surf de Matteo, minha atenção ia de encontro ao estilho daquelas pessoas que vestiam camisetas de banda, colecionavam piercings em lugares que eu não sabia que era possível e tinham um rosto muito liso para dizer que faziam a barba regularmente. Me sentei junto a eles e uma garrafa de Super Bock foi entregue a mim.

Enquanto bebíamos, Matteo e os amigos conversavam sobre as aulas de surf e outras coisas da universidade. Até que começaram a me envolver na conversa, perguntando sobre de onde eu era e o que estava estudando. Ficaram impressionados com o fato que eu já tinha um emprego antes de terminar a graduação e que não viam a hora de começar a ter seu próprio dinheiro. Conforme o interrogatório continuava, percebia o quanto os seus amigos tinham poucas experiências fora da vida acadêmica, o que me deixava cada vez mais apreensiva em relação ao episódio da idade.

O sol foi se pondo no horizonte e Matteo se aproximou para envolver seu braço, me puxando para perto de si. Encostei meu rosto em seu ombro e decidi contar sobre o que tinha acontecido de manhã em sua cada. Ele deu risada e respondeu:

– Marta deve ter ficado impressionada que eu conquistei uma mulher mais velha, só isso. — Meu coração parou por milésimos de segundos e não tinha mais saída, eu teria que perguntar a sua idade.

– Matteo, quantos anos você tem?

– Isso importa? — Ele disse sorrindo sem tirar o olho da paisagem. Me afastei dele e me virei para que ele olhasse para mim.

– Quantos anos? — repeti.

– Eu vou fazer vinte anos mês que vem — Fiquei sem reação. Respirei e respondi:

– Isso quer dizer que você tem 19 anos?! — Dei uma pausa, mas as palavras continuaram saindo como uma avalanche. — Isso é legal? — Ele me olhou como se eu fosse maluca.

– Calma querida. Está tudo sob controle. — Matteo me puxou de volta para seus braços, porém eu já não conseguia mais ficar relaxada. Será que novamente eu ia deixar dois números atrapalharem algo que naturalmente estava indo bem?

Na volta para casa eu decidi que precisava de um momento sozinha. Mesmo depois de muita insistência, Matteo desistiu de me acompanhar quando percebeu que eu não ia mudar de ideia. Decidi fazer o caminho mais longo e passei na Amorino para comprar a única coisa que podia me estabilizar novamente: gelato de pistache. Aquele copinho que comporta perfeitamente duas bolas de sorvete consegue alinhar os meu chakras e colocar a minha cabeça no lugar.

Caminhando perto da Trindade, qualquer pessoa ao redor poderia dizer que eu parecia perturbada, afinal, o meu dialogo interno não conseguia encontrar uma resposta em comum. Por um lado, eu me questionava como eu poderia ter me envolvido com alguém tão mais novo do que eu. Em outra perspectiva, eu tentava me libertar do conservadorismo de que idade era um problema.

Sem encontrar solução, cheguei em casa e coloquei uma música para tocar. Matteo tinha enviado algumas mensagens perguntando se eu estava em casa e esperava que o assunto idade não atrapalhasse o que estávamos tendo. Tarde demais. Sem responder fui tomar um banho, o que sempre ajuda a clarear as ideias, mas naquela noite estava impossível deixar com as preocupações escorressem pelo ralo.

Os dias passaram, e eu continuava evitando Matteo. Sempre inventava uma desculpa para não nos encontramos, dizendo que estava muito ocupada com o trabalho e que tinha coisas da universidade para fazer. Depois de algumas tentativas, ele parou de tentar me chamar para sair, o que me fez perceber que a criança dessa história era eu.

Em uma sexta-feira, depois do trabalho, quando me peguei no sofá sentindo falta do garoto que me fazia rir das coisas mais inusitadas. Terminei minha taça de vinho e fui me arrumar. Eu ia tentar a sorte de encontrar ele no lugar que ele sempre ia com os amigos antes do final de semana.

Ao chegar na Adega Leonor, fui caminhando em meio daqueles estudantes com a esperança de encontra-lo ali, mas não ele não estava. Sai do bar e comecei a me sentir mal. Não conseguia compreender o porquê deixava com que fatores externos se tornassem maior do que meus sentimentos. Me culpava pela autossabotagem, e pela ideia de seguir um padrão. Me questionando que se a situação fosse inversa, eu a garota de 19 anos e ele o cara de 24 anos, tudo isso não seria uma questão.

Senti um calor se aproximar de mim e quando me virei, vi Matteo.

– Procurando por al… — Não o deixei terminar de falar e o beijei. E ele me envolveu em seus braços como sempre fazia.

Depois de alguns minutos, nos desgrudamos e disse:

– Me desculpa, fui uma idiota!

– Concordo. — Ele respondeu sério — Mas eu entendo que as coisas não são simples como eu queria que fossem — Ele abriu um sorriso. Nos beijamos novamente.

Eu e Matteo curtimos o resto da primavera juntos no melhor estilo, sem neuras. Eu deixei de lado toda essa expectativa de par ideal, e simplesmente me permiti viver o que o momento estava me dando. No final do semestre, Matteo voltou para a Itália e não prometemos nada um para outro. Eu sabia que nossos caminhos tinham direções diferentes e que o futuro reservava outras coisas para nós. Contudo, ele deixou marcado em mim que, se aprendermos a ter mais leveza no a dia-a-dia, coisas incríveis podem acontecer.

A.M.

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