A última parada do para sempre

Morar em São Paulo demanda ter a habilidade de andar de metrô. Espalhado pela cidade, linhas vão cruzando bairros e complementando o charme de morar em uma cidade grande. Cada uma possui uma cor diferente, que ajuda identificar de onde vem e para onde vai. Os trens chegam e partem, deixando centenas de pessoas em uma estação e colhendo mais centenas para deixar em outras.

Certa vez, em uma estação distante da onde morava, encontrei alguém que embarcou junto comigo. Aos poucos, fui sendo tomada por um sentimento diferente, algo inexplicável que inevitavelmente transformou minha realidade. Aquilo que vinha de dentro era algo que nunca tinha experimentado, e me fez acreditar que o para sempre de fato pertencia a eternidade. As ações e reações eram primitivas mas vinham de um lugar genuíno. Cada dia aprendia com emoções novas que surgiam. Houveram dias que senti que aquilo nunca iria embora, não entendendo como algo que dói tanto pode ser tão bom. Era sufocante, instável, ingênuo, perverso e cruel.

Algo grande aconteceu e fui obrigada a sair de cena. Lembro da dificuldade de lidar com a perda. O corpo por dentro estava oco, as luzes apagadas e os sonhos levados. Os dias eram intermináveis e as noites pesadelo. Tudo o que estava perto embaralhava a memória e desmentia o que acreditava que era certo.

Realocando as peças, voltei a andar a sozinha e a lidar com a solidão. Ocupava a minha cama de vez em quando, prometendo que aquilo era um passatempo para lidar com as horas vagas. Procurava resposta do lado de fora e silenciava a voz de dentro. O sentimento parecia ser mais vulnerável quando não dava ouvido a ele, mas de uma forma ou de outra, sempre cutucava o sossego.

Em uma conversa, descobri que aquilo estava acontecendo porque tinha me apaixonado. Lágrimas escorreram do meu rosto e senti todas as minhas veias pulsando eletricidade como uma correnteza. Me culpava por sentir algo forte por alguém que sabia que não correspondia o que eu precisava. Durante semanas, o sono foi substituído por pensamentos e sempre encontrava uma forma de entorpecer toda aquela confusão da minha mente.

Tudo veio à tona. A conversa, a verdade, a tentativa, a compreensão, a leveza e a distância novamente. À princípio, a esperança dizia que tudo era questão de tempo, no dia da despedida, ficou claro que se eu tentasse eu alcançaria, mas os dias foram passando e as barreiras foram impedindo que eu continuasse me esforçando por algo que não estava ao meu alcance.

Existe momentos em que alguém ou uma situação está sob um holofote, até o momento que aquilo gira as e prioridades mudam. O que antes não tinha importância começa a ganhar um peso maio, e o que estava difícil de carregar, pouco se manifesta.

Sentia saudade do que não existia mais, o tempo tinha levado quase tudo, e eu ainda me deixava no mesmo lugar, me questionando porque só a minha vida não estava andando. Olhando para o passado não dava oportunidade para aquilo que estava esperando para acontecer no presente. Vivendo momentos de muitas dúvidas e nenhuma identificação. Deixando com que opiniões e decisões alheias fossem mais importante do que eu.

O golpe no estomago veio, abrindo meus olhos para a mudança. Se eu continuasse esperando por alguém que já tinha ido embora, perderia a oportunidade das coisas que estavam ao meu lado. E no processo de recuperar a autoconfiança e andar com as próprias pernas, percebi que sempre fui sozinha ao lado daquela pessoa. Por mais que eu quisesse acreditar que ao lado dela eu era mais feliz, eu sabia que tudo o que eu fazia era me diminuir para caber. O amor que eu sentia era o que me alimentava, mesmo enganando a mim mesma, e dizendo que vinha do outro. Tudo o que eu oferecia era sufocante ou nada era o bastante.

A parte mais difícil de amar alguém que não compreende o tamanho do seu amor é que você pode dar tudo de si, mas nunca vai ter espaço para você estar lá. Caso você decida entregar sem receber, em pouco tempo vai notar uma insegurança surgir, e vai se questionar se não está sendo grudento demais ou duro demais. O amor-próprio parece não existir, e quando você tenta se posicionar, é convencido de que não pode ser maior. Quando experimentamos um pedacinho do amor que existe dentro de nós é quase que irresistível não querer ter aquilo todo dia.

De volta aquela estação, percebi que já estávamos em plataformas diferentes há muito tempo, e que as direções dos nossos trens não coincidiam mais. Insistia em esperar o momento que uma vez viver acontecer novamente, mas dessa vez, sem pensar eu peguei o primeiro trem que apareceu, e sem olhar para traz parti para outra parada.

A.M.

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