O tic-tac da cidade e o compasso do coração

Viver em uma cidade grande é quase como se tivesse um compasso constante no coração. Sempre tem algo para fazer, um lugar para descobrir ou uma experiência para viver. Procurar um lugar para descansar em São Paulo é quase tão complicado quanto reservar uma mesa no Sky Bar, mas para quem persiste — ou usa a melhor desculpa — conquista.

Não sei se era a música que tocava ou as batidas acelerando no peito, mas para quem já viveu momentos de ansiedade sabe o quanto o corpo pode ser sonoro. Era um ta tum na cabeça e um toc toc na nuca, de certa forma, tentava aparentar que tudo o que eu estavá fazendo era escutar os instrumentos que viam das caixas de som do teto.

Antes mesmo que eu pudesse terminar meu drink, o ambiente foi tomado por um ar nostálgico, e a pessoa pela qual eu esperava entrou no local. Javier se aproximou com seu sorriso de propaganda da colgate e antes mesmo de me comprimentar, perguntou se isso estava acontecendo porque o mundo era pequeno demais ou a vida muito óbvia. Era mesmo estranho voltar a ter um contato tão próximo com alguém, especialmente depois de tanta coisa que aconteceu, mas entre o habitual e as coincidências, prefiro ficar com as escolhas.

O hotel Unique fica localizado na penúltima parada da avenida Brigadeiro Luís Antônio, possui uma arquitetura inesquecível e já concedeu espaço para diversos eventos, dentre eles, desfile de moda. Contudo, o grande charme fica no terraço, espaço dividido entre restaurante e bar, ambiente fechado e aberto, e luzes baixas para que através dos vidros nada seja mais único do que sentir a cidade.

Sentamos perto da piscina de frente para a infinita vista de prédios, e naquele momento eu quase que jurei a mim mesma que coicidências são mentira. O lugar estava movimentado e as pessoas pareciam descontraídas, tentei fazer o mesmo enquanto conversávamos sobre o que aconteceu ao longo desses anos, mas algo parecia chamar mais a atenção dele. Sem perder o sorriso, reclamava de cada ponto do lugar, desde o atendimento até a escolha do cacto como decoração. Quando as bebidas chegaram, ganhei um intervalo entre as opiniões fortes. Conversamos sobre como estava nossas vidas e o motivo pelo qual ele estava no Brasil. Rimos e brindamos, mas isso logo mudou quando a fome apareceu e tive que explicar cada ingrediente que estava no menu. De repente a luz era baixa demais para comer, e faltava música de verdade para as pessoas se entreterem. O gosto da comida era interessante mas não entendia o porque ela era frita, e já na segunda taça de vinho, eu me perguntava se a uva não relaxava gente chata. A bexiga apertou e pedi licença para ir ao banheiro, mas antes mesmo de entrar no corredor, vi que o elevador estava chegando no andar, o que me fez entrar logo quando as portas se abriram.

Não demorou muito até começar a receber as mensagens no celular, apertei o passo até entrar no mercado que fica próximo do hotel. Por sorte, naquele dia, estava tendo promoção de vinho. Ao pegar o celular para pagar, a tela mostrava notificações vindas de todas redes sociais e mais de 10 ligações perdidas. Coloquei o celular no bolso e as comprar na sacola, ele não iria estragar o resto da minha noite.

Andei até o parque Ibirapuera que ainda estava com bastante movimento e gente correndo. Fiquei caminhando por aquelas pistas de corrida de salto alto a procura de alguém que conseguiria abrir minha garrafa de vinho. Com sorte, o senhor da barraca de coco tinha uma técnica milenar que nem precisava de saca-rolhas, e agradeci imensamente pelo talento que tinha. E neste momento, escutei uma música vindo de algum lugar não muito longe de onde estava. Seguindo o som, encontrei uma banda de Jazz cercada por diversas pessoas que ali ficaram. Fiz o mesmo e sentei na grama com tudo o que eu tinha. Com aquela sonoridade incrível e a harmonia dos artistas, tudo se completou com a vista.

Para quem conhece o ritmo agitado de São Paulo, sabe que a cidade possui seu próprio tic-tac acelarado, e pouco sobra espaço para a a contemplação. Tem coisas que merecem ser admiradas, aprofundadas e valem a pena se demorar, mas também existem coisas que se olhar muito perde o encanto. E foi naquela noite que eu descobri que o que vem de dentro sempre tem uma sincronicidade incrível com o que está de fora.

A.M.

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