São Paulo é uma cidade em constante transformação. De uma geração para outra, as referências e experiências são quase como ter vivido em lugares completamente diferentes. Estabelecimentos fecham e dão origem a novos prédios, clubes e baladas sempre mudam de nome e o que um dia já pareceu ser eterno hoje já nem faz mais sentido. Mesmo que possa ser desconfortante, acredito ter herdado essa característica de eterna metamorfose. A constante inquietação, a pulsante necessidade de mudança e a habilidade de fazer com que o velho morra para o novo nascer.
São nos pequenos hábitos, nos diferentes estilos de roupa ou nos assuntos cotidianos, que em questão de dias (dependendo do trauma até horas) encontro uma nova versão de mim. A mudança pode vir de forma devastadora ou silenciosa, e mesmo que seja um caos, o âmago sempre se mantém intacto, como o coração dessa cidade.
Na tentativa de despir o meu incômodo, vesti a coragem para tentar sair do tédio que vinha me perseguindo há um tempo. Era domingo de manhã, e lá estava eu atravessando a cidade rumo a uma aula de yoga no parque Ibirapuera. O convite veio através de uma conversa em uma livraria, e na tentativa de afrouxar o elástico do “abrir-se para novas experiências”, aceitei. Porém o arrependimento começou instantaneamente ao ver o relógio despertar às 6 horas da manhã.
Da linha vermelha à linha verde, da zona leste à zona sul, não importa quantos anos se mora nessa metrópole, a pluralidade é intrigante, e nunca se pode duvidar do que é possível encontrar no metrô. Mas quem sou eu para dizer algo enquanto carrego um tapete enrolado nas costas no horário em que as estão voltando da noitada.
Não demorou muito até encontrar o portão 7 do parque; se tivesse combinado, talvez não teríamos chegado no mesmo horário. Estar ali era um misto de sentir prazer em fazer algo diferente e querer sair correndo. Tanto dentro como fora, era como se não existisse emoção para aquilo tudo, e a única preocupação era tentar manter a peteca da conversa não cair.
Ao olhar as árvores movendo e as folhas caindo enquanto o vento soprava, me questionava como tinha parado ali? Quase como se tivesse autorizado alguém a tomar as decisões por mim. Os movimentos do exercício foram ficando mais intensos e a angústia mais apertada. Tudo ao redor parecia muito vivo, mas tinha algo ali, bem mais escondido, que estava cinzento.
Rumo a saída do parque, notei que tinha não mais do que 1km para decidir se iria para casa ou toparia um almoço com tempero de date. Investi em perguntas precisas já que a caminhada não era muito longa, e logo encontrei uma identificação, mas não foi o suficiente para sobressair a confissão que ficou presa em minha mente. A decisão não tinha sido feita, mas intuitivamente decidi entrar no ônibus, e a lembrança da conversa vinha e voltava como uma música no repeat.
Foram algumas paradas e duas linhas de metrô até sentir a bola de demolição batendo em minha cabeça. “O que eu estava fazendo?” A sirene do metrô tocou e as portas se abriram. Naquele momento era quase como se um prédio tivesse desmoronado dentro de mim. Tudo o que eu sentia não estava ligado à pessoa que eu tinha encontrado, mas o que ela falou despertou o que precisava ser notado. Por mais que a vida seja incontrolável, eu jamais poderia deixar o que está por vir ser menos do que eu já deixei ir.
A.M.

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